segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O gênio da Literatura Portuguesa


Passagem das horas


“Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,

Ou de tombadilhos, sonhando,

E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.”


“Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei…

Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos…

Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,

Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir

E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.


A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,

Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,

Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,

Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,

Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,

Deste desassossego no fundo de todos os cálices,

Desta angústia no fundo de todos os prazeres”


“Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.

Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei

Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência

,Consangüinidade com o mistério das coisas, choque

Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,

Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.


Seja o que for, era melhor não ter nascido,

Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,

A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,

A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair

Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,

E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,

Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,

E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,

Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.”


“Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.

Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.

Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.

Estou no caminho de todos e esbarram comigo.

Minha quinta na província,

Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.

Assim fico, fico… Eu sou o que sempre quer partir,

E fica sempre, fica sempre, fica sempre,

Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica…


Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.

Só humanitariamente é que se pode viver.

Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,

Só assim – ai de mim! -, só assim se pode viver.

Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!


Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,

Mas tudo ou sobrou ou foi pouco – não sei qual – e eu sofri.

Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,

E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.

Amei e odiei como toda gente,

Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,

E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.”



“Não sei sentir, não sei ser humano, conviver

De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.

Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,

Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,

Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta”


“Sentir tudo de todas as maneiras,

Viver tudo de todos os lados,

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,

Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.


Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,

Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,

Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,

Seja uma flor ou uma idéia abstrata,

Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.

E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.

São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,

E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,

Porque ser inferior é diferente de ser superior,

E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.

Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,

E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,

E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,

E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.

Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,

Basta que ela exista para que tenha razão de ser.

Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,

(No mesmo abraço comovido)

O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,

O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,

E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,

O ladrão de estradas, o salteador dos mares,

O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —

Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.”


"Cometi todos os crimes,

Vivi dentro de todos os crimes

(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,

Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,

E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).
Multipliquei-me, para me sentir,Para me sentir, precisei sentir tudo,

Transbordei, não fiz senão extravasar-me,

Despi-me, entreguei-me,

E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.”



“Obter tudo por suficiência divina —

As vésperas, os consentimentos, os avisos,

As cousas belas da vida —

O talento, a virtude, a impunidade,

A tendência para acompanhar os outros a casa,

A situação de passageiro,

A conveniência em embarcar já para ter lugar,

E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase,

E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.”



“Assisto a tudo e definitivamente.

Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,

Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira”
“Fui educado pela Imaginação,

Viajei pela mão dela sempre,

Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,

E todos os dias têm essa janela por diante,

E todas as horas parecem minhas dessa maneira.”


“Sentir tudo de todas as maneiras,

Ter todas as opiniões,

Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,

Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito, e amar as coisas como Deus.”



“Ah, não estar parado nem a andar,

Não estar deitado nem de pé,

Nem acordado nem a dormir,

Nem aqui nem noutro ponto qualquer,

Resolver a equação desta inquietação prolixa,

Saber onde estar para poder estar em toda a parte,

Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas”

“Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,

Declina dentro de mim o sol no alto do céu.

Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.

Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?

Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,

Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,

Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,

Calcar, calcar, calcar até não sentir.

Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,

Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.”


Obras Poéticas, de Fernando Pessoa



Nenhum comentário:

Postar um comentário